domingo, 24 de maio de 2009

Vida veio e me levou.



Hoje, durante a sessão de Budapeste, fui acometida por um ataque de ansiedade. O filme, como livro que nem terminei de ler, não me pegou mesmo. Então, desci a rua pra pegar o ônibus. Com fome, um leve mau-humor de tpm e muita vontade de escrever. Não seria sobre o filme nem sobre o Chico. Não seria especificamente sobre uma única coisa. E, sim, exatamente como tem sido. Para escrever aqui, costumo seguir um entre dois caminhos. No primeiro, reflito um pouco sobre alguma ideia, um problema ou uma pendência que me ronda E, fatalmente, isso me traz uma música. Já falei sobre isso no início do blog. No segundo, a música me convida a escrever sobre ela, seu autor ou intérprete. Hoje, fico com o primeiro caminho. Já comi alguns pedaços de frango assado e confesso que meu mau-humor foi amenizado por um doce telefonema. Mas quero falar sobre o ocorrido antes que o incômodo passe.

Cheguei ao ponto de ônibus e comecei a conferir as linhas que passavam por lá. Fiquei atenta pra não trombar em uma moça de cabeleira loura e longa (até a bunda) que carregava um bebê. Mas não era um bebê. Era um cachorrinho. E a moça devia ter uns 68 anos. Mas ela não se lembra disso mais. Ninava o cachorro com uma voz insuportavelmente fina. Parecia a cuca. A primeira, que a Dorinha Duval fazia. Falava sem parar, fazia beicinho e rodava a saia de seu minivestido lilás enquanto esfregava o rosto no cachorro. A filha estava perto tentando conversar com outra mulher. Mas os grunhidos da mãe não deixavam.

Dez minutos. Vinte minutos e nada do ônibus chegar. Descobri que a verdadeira voz da "moça" é fina só pra falar com o cachorro. Quando engrossava, falava mal e sem piedade de uma mulher que lhe pediu 1000 reais emprestados. Dizia assim, bem malvada:

- Se ela tivesse me pedido 100 reais, eu emprestaria. Mas ela tem o “olho grande” e me pediu 1000. Ah, não emprestaria nem se tivesse.

Enquanto isso, a filha tentava ignorar a presença da mãe. Às vezes, pedia com educação, mas irritada, que ela parasse de falar um pouco. E a cuca continuava babando no cachorrinho. Tive pena dele. Deu vontade de arrancá-lo do colo dela. Pensamento quase tão idota quanto a conversa da mulher. Eu sei.

Comecei a pensar sobre o dito vulgar que diz “toda mulher é igual”. Nem toda mulher, nem todo homem, nem todo ser humano. Em algum ponto a gente se encontra, é claro. Ainda que seja no ponto de ônibus. Mas, igual a gente não é. Por favor!
Pensei também sobre a velhice, que me assusta especialmente pelas perdas que traz. Tenho medo de perder os dentes, os cabelos, o viço da pele, a visão, a memória e até (principalmente) o senso de ridículo. O medo é diferente em cada um. Porém, atire a primeira pedra quem não tem medo de envelhecer. Nessa dor, com mais ou menos elegância, a gente sempre se encontra. "Que dia, nossa!"




8 comentários:

Sofia Fada disse...

Adorei isso: "Em algum ponto a gente se encontra, é claro. Ainda que seja no ponto de ônibus."
ahahaha,
ótimo, querida!

bjs!

Elena disse...

Mas não é? rs... Beijos, Sofia.

Liquidificador a Gas disse...

Visão do inferno.. pessoal e intransferível. Na carência de amor no mundo, acho que a Cuca transfere tudo pro cachorro... Mas, na melhor das hipóteses, apesar do vestido lilás, seus longos cabelos loiros, ainda lhe resta alguma fagulha de amor no coração! Pobre muher.

Elena disse...

Isso aí, fofinha. Ela ama como pode.

maria disse...

adorei seu blog.. vc escreve muito bem.. quando acabou eu queria mais..que vc continuasse.. parabéns.. moça talentosa..beijos

Maria Bonfá

Elena disse...

Obrigada, Maria! Que bom que você gostou. Bem-vinda ao Miçangas. E volte sempre. Beijos.

Aroeira disse...

rsrsrs adoeir "Em algum ponto a gente se encontra, é claro. Ainda que seja no ponto de ônibus." rarará ótima ironia, metáfora, o que quer que seja. realmente, a velhice e a morte são duas moribundas que, se não andam de mãos dadas, vêm uma após a outra.

Elena disse...

São duas tias velhas chatas, Aroeira. Daquelas que a gente torce pra nunca receber a visita. E são irmãs.